domingo, 31 de agosto de 2008

Maré.

Quando vinhas, sonhávamos.
Quando ias, o pesadelo.

Quando vinhas, gargalhávamos.
Quando ias, o pranto.

Quando vinhas, adormecíamos.
Quando ias, a vigília.

Quando vinhas, gotejávamos.
Quando ias, a aridez.

Quando vinhas, saciávamos.
Quando ias, a fome.

Quando vinhas, iluminávamos.
Quando ias, a escuridão.

Qual maré, a vida era de vindas e idas.
Agora, uma placidez de lago me cala fundo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Passagem.

Havia uma trilha
Na ilha
Da filha
Da velha.

Que pena, ninguém passava por ali.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Despedida.

Em ti a partida,
Em mim a permanência.

Tua escolha final
Contrasta com minha reticência.

O fim de uma inconstância.
Decido pelo risco de sangue e

Saboreio a inconveniência
Que, agora, o meu corpo te trará.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Partida.

O mundo se encerrava em nós
Tu e eu.

Nada mais havia ou importava
A luz dependia de nós,
As marés nos cercavam
Indo e vindo,
Sem levar a lugar algum.

Agora eu me cerro
Só eu.
Nada mais há ou importa.
Na escuridão espero a maré,
Que me levará.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Esquecimento.

Ouço a voz que de dentro sai
E não a compreendo.
Procuro mover os pensamentos
Na direção do entendimento
E não consigo

O vazio tomou conta da memória
O vento passa célere pela cabeça
Move-se como dono
Daquilo que já foi meu.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O eterno contínuo.

Mesmo se...

o mar secar
o céu acabar
a paz retornar e
os dias virarem noites

eu estarei aqui
a te esperar e
a te desejar.

Eterno,
Contínuo.
Só teu.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Os seios de Matilda.

Situação inusitada. De ocorrência incomum e, portanto totalmente indispensável a sua divulgação. Não cobrem deste repórter detalhes esclarecedores porque há anos não cuido dos noticiários. Dedico-me a um jornalismo social, cuja importância repousa tão somente no fato e não em detalhes. Portanto não vou descrever o local, o tempo e nem mesmo o nome real das personagens. Basta dizer que Matilda é o centro da narrativa.

Afinal, nem mesmo ela poderá contestar a estória, pois está morta. Também não poderá esclarecer, detalhadamente, aos outros repórteres. Com isso, nivelamos todos, os detalhistas e eu. Por mais que mexam e remexam, não encontrarão nada melhor.

A narrativa começa, inclusive, depois da morte da protagonista e permanece sem solução. Bem, Matilda morreu. Era uma morena bonita com seios postiços. Melhor seria descrevê-los como implante de mamas de 350 mililitros, mas como sou antigo vou me referir como seios postiços. Era separada do marido e vivia amasiada com um segundo homem. Bem mais moço que ela.

A morte precoce impediu a morena de pagar pelo tal implante. Os seios postiços não eram dela. Estavam nela. Mas não lhe pertenciam. Foi o que a justiça determinou. Ganho de causa para o implantador de seios. Na sentença final apareceu uma forma deles permanecerem com ela – alguém pagar por eles. Caso contrário, eles seriam retirados antes do enterro. Afinal o corpo fora embalsamado até a finalização do processo, justamente por isso.

O impasse está criado. Para ficar com a falecida, um dos seus amados, passados ou presente terá de dispor de uma quantia substancial, só para saldar a dívida. O ex-marido já afirmou que se ele pagar vai querer os tais postiços. Não vai deixá-los no lugar. Aonde vai por nem sei. Do amante infantil nem manifestação. E mesmo não teria condições. Não tem onde cair morto. Resta agora alguma cadeia de televisão fazer uma grande campanha pelos seios da Matilda. Ou talvez uma corrente na internet. Vamos ver.